Comércio exterior Opinião

Da soja ao cobre: a nova etapa da parceria estratégica entre Brasil e China

Artigo de opinião de autor convidado. Maurício Mendes Dutra, PhD, analisa por que a parceria entre Brasil e China está migrando do comércio de alimentos e minério de ferro para um eixo estratégico de infraestrutura, energia, tecnologia e minerais críticos — com o cobre no centro.

Ao longo dos últimos dezoito anos acompanhando de perto a evolução das relações econômicas entre Brasil e China, tanto no ambiente acadêmico quanto no mercado financeiro, tenho observado uma mudança silenciosa que ainda recebe menos atenção do que merece.

Grande parte das análises sobre a relação sino-brasileira continua concentrada no comércio exterior tradicional. O debate normalmente gira em torno da soja, do minério de ferro, da carne bovina ou dos sucessivos recordes da corrente de comércio bilateral.

Esses elementos permanecem fundamentais. Contudo, já não são suficientes para explicar a profundidade estratégica que passou a caracterizar a relação entre as duas economias.

Por que a relação Brasil–China vai além da soja e do minério?

A interpretação que faço hoje é que Brasil e China estão entrando em uma nova fase de relacionamento. Uma fase em que alimentos continuarão importantes, mas deixarão de ser o único elemento central da parceria. O eixo estratégico está gradualmente migrando para infraestrutura, energia, tecnologia, logística e minerais críticos.

Essa transformação não ocorre por acaso.

A China compreendeu, talvez antes da maioria das economias ocidentais, que o século XXI seria marcado não apenas pela inovação tecnológica, mas pela capacidade de garantir segurança alimentar, energética, logística e mineral. Em um ambiente internacional cada vez mais marcado por disputas geopolíticas, tensões comerciais e reconfiguração das cadeias produtivas globais, segurança tornou-se um ativo econômico tão importante quanto eficiência.

Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição singular.

Poucos países conseguem reunir simultaneamente escala territorial, abundância de recursos naturais, liderança agrícola global, matriz energética relativamente limpa, estabilidade geográfica e capacidade de expansão produtiva. Essa combinação confere ao país uma relevância estratégica que vai muito além da condição de exportador de commodities.

Quanto vale hoje o comércio entre Brasil e China?

Os números ajudam a compreender a dimensão dessa realidade.

A corrente de comércio entre Brasil e China alcançou aproximadamente US$ 171 bilhões em 2025, consolidando a China como principal parceiro comercial brasileiro e representando mais de um quarto de todo o comércio exterior do país. Mais do que um dado econômico, esse número revela uma integração estrutural que dificilmente pode ser considerada conjuntural.

Mas é justamente além do comércio que enxergo a transformação mais relevante.

Nos últimos anos, a China passou a direcionar investimentos crescentes para setores estratégicos da economia brasileira. Energia renovável, infraestrutura logística, mobilidade elétrica, tecnologia e mineração passaram a ocupar espaço cada vez maior na agenda bilateral.

Em 2025, o Brasil tornou-se o principal destino dos investimentos chineses no exterior, atraindo cerca de US$ 6 bilhões em novos projetos. Não se trata apenas de capital buscando retorno financeiro. Trata-se de investimentos associados a interesses estratégicos de longo prazo.

Por que o cobre é o novo petróleo do século XXI?

É nesse ponto que o cobre emerge como protagonista.

Frequentemente tratado apenas como mais uma commodity mineral, o cobre tornou-se um dos recursos mais estratégicos da economia contemporânea. A expansão dos veículos elétricos, dos sistemas de armazenamento de energia, das redes de transmissão, dos parques eólicos, das usinas solares e dos data centers necessários para sustentar o avanço da inteligência artificial está provocando um crescimento estrutural da demanda global pelo metal.

Tenho sustentado em diversas discussões que o cobre poderá desempenhar para a economia eletrificada do século XXI papel semelhante ao que o petróleo exerceu para a economia industrial do século XX.

E essa não é uma afirmação retórica.

Sem cobre não existe eletrificação em larga escala. Não existe transição energética. Não existe infraestrutura robusta para inteligência artificial.

Terras raras: o paradoxo das reservas brasileiras

O Brasil possui reservas relevantes desse mineral e um potencial ainda subexplorado quando comparado a outras grandes economias mineradoras. Mais importante do que isso, o país possui uma combinação rara de minerais estratégicos.

Segundo dados do Serviço Geológico do Brasil e de organismos internacionais, o país detém aproximadamente 23% das reservas mundiais de terras raras, ocupando posição entre as maiores reservas globais desses minerais essenciais para a produção de semicondutores, baterias, motores elétricos, equipamentos de defesa e tecnologias avançadas.

Existe, entretanto, um paradoxo que merece reflexão.

Embora possua uma das maiores reservas conhecidas do planeta, o Brasil ainda participa de forma modesta da produção global de terras raras e de diversos minerais críticos. Em outras palavras, já somos uma potência geológica, mas ainda não nos consolidamos plenamente como uma potência industrial associada a esses recursos.

Talvez esse seja um dos maiores desafios econômicos brasileiros das próximas décadas.

A oportunidade não está apenas em extrair minerais.

A oportunidade está em desenvolver capacidade tecnológica, industrial e financeira capaz de transformar esses recursos em produtos, inovação, empregos qualificados e aumento de produtividade.

Complementaridade estratégica: o que cada país precisa do outro

Sob a perspectiva chinesa, essa agenda possui enorme relevância.

A China necessita de acesso estável a alimentos, energia e minerais estratégicos. O Brasil necessita de investimentos, tecnologia, infraestrutura e ampliação de sua capacidade produtiva.

Existe uma complementaridade estrutural entre essas necessidades que transcende governos, ciclos econômicos e conjunturas políticas.

Por essa razão, considero um equívoco interpretar a relação Brasil–China exclusivamente sob lentes ideológicas.

Relações econômicas duradouras são construídas sobre interesses nacionais, não sobre narrativas momentâneas.

Da soja ao cobre: de uma relação comercial a uma relação estratégica

O verdadeiro desafio brasileiro consiste em compreender a magnitude da oportunidade que se apresenta.

Nenhum país alcança protagonismo sustentável limitando-se à exportação de produtos primários. O próximo estágio da parceria sino-brasileira exigirá agregação de valor, inovação tecnológica, segurança jurídica, estabilidade regulatória e visão estratégica de longo prazo.

A grande questão não é se a relação entre Brasil e China continuará crescendo.

A meu ver, essa tendência já está consolidada.

A questão relevante é se o Brasil conseguirá transformar essa relação em uma plataforma para acelerar seu próprio desenvolvimento econômico e tecnológico.

Por isso, acredito que a verdadeira evolução da parceria sino-brasileira esteja simbolicamente representada na passagem da soja ao cobre.

Não porque um substitua o outro.

Mas porque ambos revelam uma transformação mais profunda: a passagem de uma relação predominantemente comercial para uma relação cada vez mais estratégica na construção da nova geografia econômica do século XXI.


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Este é um artigo de opinião e reflete a análise do autor. Os dados citados (corrente de comércio, investimentos e reservas minerais) são referências mencionadas pelo autor — confirme valores atualizados junto a fontes oficiais (MDIC/ComexStat, Serviço Geológico do Brasil) antes de usá-los em decisões.